O corredor do Edifício Federal Ronald V. Dellums, em Oakland, Califórnia, virou palco de uma fila incomum nas últimas semanas. Jornalistas, advogados, entusiastas de tecnologia e curiosos se acotovelam toda manhã para garantir um lugar na galeria de um julgamento que promete redesenhar o futuro da inteligência artificial — e talvez o de algumas das maiores fortunas do planeta.
Pela terceira vez consecutiva nesta quinta-feira (30), Elon Musk ocupou o banco das testemunhas. Do outro lado da sala, Sam Altman, CEO da OpenAI, assistia em silêncio. Os dois homens que já foram aliados na fundação daquilo que se tornaria a empresa de IA mais influente do mundo agora trocam olhares frios num tribunal federal.
A acusação: "roubo de uma instituição de caridade"
A ação movida por Musk é, em essência, uma disputa sobre identidade e promessas. Em 2015, ele foi um dos fundadores e principais financiadores da OpenAI, criada explicitamente como uma organização sem fins lucrativos. A carta de fundação da empresa declarava que ela buscaria criar tecnologia de código aberto para o benefício público, e que não era organizada para o ganho privado de nenhum indivíduo.
Hoje, a OpenAI está avaliada em cerca de US$ 852 bilhões. Para Musk, a transformação em empresa lucrativa é um roubo. Em seu depoimento, ele descreveu três fases em sua relação com a organização: primeiro, quando era "entusiasticamente favorável"; depois, quando começou a ficar "um pouco incerto" de que a OpenAI estava se desviando da missão original; e finalmente, quando sentiu que "estavam saqueando a instituição de caridade."
A quantia pedida é astronômica: US$ 134 bilhões. Mas o que Musk realmente quer, segundo seus advogados, é forçar a reversão da empresa ao modelo sem fins lucrativos, a destituição de Altman e do presidente Greg Brockman da diretoria, e garantir que o dinheiro retorne à fundação original da OpenAI.
Três dias no banco das testemunhas
Nas primeiras horas da quarta-feira, boa parte do interrogatório se concentrou em e-mails internos trocados entre Musk e executivos da OpenAI sobre possíveis planos de incluir uma estrutura com fins lucrativos. Musk afirmou que aceitaria uma subsidiária lucrativa, desde que permanecesse subordinada à organização sem fins lucrativos.
"O que não pode acontecer é a parte lucrativa se tornar o evento principal — e é exatamente isso que temos aqui", disse ele ao tribunal.
Os momentos mais tensos vieram durante o contrainterrogatório conduzido pelo advogado da OpenAI, William Savitt. Musk acusou o advogado de formular perguntas "projetadas para enganá-lo" e comparou a linha de questionamento a uma armadilha retórica — antes de ser interrompido pela juíza Yvonne Gonzalez Rogers.
Outro ponto controverso: a defesa da OpenAI tentou demonstrar que o próprio Musk havia sugerido, em determinado momento, a criação de uma ala lucrativa para competir com o Google. Musk contra-argumentou dizendo que nunca quis que o braço lucrativo se tornasse dominante.
"Sour grapes" ou defesa legítima?
A narrativa da OpenAI é diametralmente oposta. O advogado principal da empresa, Savitt, disse ao júri: "Estamos aqui porque o Sr. Musk não conseguiu o que queria na OpenAI. Ele saiu, dizendo que eles iriam fracassar com certeza. Mas meus clientes tiveram a audácia de seguir em frente e ter sucesso sem ele."
A OpenAI afirma que Musk deixou a empresa porque não conseguiu assumir o controle total, e que seu processo é motivado por ciúme e arrependimento. Em 2023, Musk fundou a xAI, sua própria empresa de inteligência artificial, hoje rival direta da OpenAI.
A juíza Yvonne Gonzalez Rogers tem demonstrado mão firme. Antes mesmo do início dos depoimentos, ela advertiu publicamente ambos os lados sobre o uso das redes sociais para influenciar a opinião pública durante o julgamento — um detalhe que, num caso envolvendo o dono do X (antigo Twitter), não passou despercebido.
O que vem por aí
O júri de nove pessoas funcionará de maneira consultiva, auxiliando a juíza Rogers a decidir se concede as medidas pedidas por Musk. O julgamento deve durar cerca de três semanas.
Ainda faltam depor Sam Altman e o CEO da Microsoft, Satya Nadella — a gigante de Redmond foi incluída no processo como co-ré, acusada de ter facilitado o que Musk chama de violação do trust filantrópico.
No horizonte imediato, a OpenAI planeja um IPO que pode ser um dos maiores da história da tecnologia. Uma sentença desfavorável poderia comprometer não apenas esse plano, mas a própria estrutura da empresa mais valiosa do setor de inteligência artificial.
Enquanto isso, na sala de audiências em Oakland, Elon Musk continua depondo — às vezes irritado, às vezes filosófico — sobre o que considera ser o maior roubo da história da filantropia tecnológica. Do outro lado, Sam Altman espera sua vez. A história da IA raramente foi tão humana quanto nestes dias de tribunal.

